A cultura da violência

“A cultura da violência existe e cresce”. Segundo essa assertiva, uma cultura específica encapsularia a violência em certas sociedades ou civilizações. Mas a violência não se refere aos critérios de tal ou qual civilização, nem às regras de uma sociedade dada, nem mesmo de um tempo histórico determinado. Ela é imanente ou presente, mesmo que limitada ou relativamente controlada, em todas as culturas,  assim como a cultura da paz. Tem outros nomes na antropologia: reciprocidade negativa ou positiva e destruição de coisas e pessoas ou construção de laços sociais mesmo entre inimigos, numa visão que é dicotômica mas que não exclui a tensão permanente entre esses dois pólos nos confrontos competitivos e conflitivos do potlacht, do esporte moderno e de muitas trocas agônicas. Nessas trocas, as regras que impedem a completa destruição dos outros são acordadas e vigoram para que o jogo continue. Quando a violência irrompe, muitas vezes, por uma conjunção de ações retroalimentadas por outras ações individuais ou coletivas, ela é governada não apenas pelo cálculo racional, mas pela paixão ou emoção descontrolada. A violência absoluta se exalta e se propaga indefinidamente no circuito das vinganças, mas também dos prazeres destrutivos que se tornam viciados e excessivos. Quando baseada no massacre ou no terror, ela inverte o mundo familiar, cria a incerteza, destrói a previsibilidade das ações. Os olhares tornam-se vagos, não há mais terreno seguro, perde-se o chão, o abrigo e a proteção, tal como vimos acontecer ao vivo e em cores no dia 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, mas também no Iraque e no Afeganistão. Tais ações descontroladas não são mais combates entre duas quadrilhas ou grupos em guerra, mas verdadeiros massacres de quem não está envolvido e não tem meios de defesa, porque os massacres acontecem dentro de ambientes fechados (como nas torres do WTC). Esses excessos, no Brasil, são promovidos pelos grupos de extermínio, sejam eles compostos de policiais ou traficantes, dentro de casas, bares, favelas, onde o fator surpresa impede que as vítimas fujam (às vezes para serem caçadas) ou se defendam com armas de potência similar. As conseqüências sociais são catastróficas na medida em que não é mais possível prever o comportamento alheio, deixando portanto de funcionar os parâmetros do perigo e da ordem, assim como os fundamentos da confiança, sem a qual não existe vínculo social positivo. Nessas situações, é o medo sem direção, isto é, o pânico que prevalece. Atinge, embora desigualmente, tanto os pobres e camadas médias da favela quanto os pobres e camadas médias do asfalto, os primeiros porque estão no centro da ação de guerra e são vítimas de crimes violentos, os segundos por estarem na periferia da ação e por serem vítimas de crimes contra a propriedade. Uma estratégia pública muito bem pensada e muito eficaz precisa ser montada para interromper esse circuito. Dizer que o medo aqui é fruto da manipulação da mídia é, portanto, uma afirmação ideológica que tenta negar o que acontece: não apenas a violência institucional, mas sobretudo a violência que resulta das transações selvagens e ilegais dos tráficos no crime-negócio. Fonte: Alba Zaluar Alba Maria Zaluar (Rio de Janeiro) é uma antropóloga brasileira, com atuação na área de antropologia urbana e antropologia da violência.

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