A desigualdade social é a explicação da violência

“A desigualdade social é a explicação da violência”. Baseada principalmente no diferencial de renda entre os mais ricos e os mais pobres, ou no diferencial de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), essa tese pressupõe que a revolta moveria os homens a agir violentamente para diminuir as distâncias e as invejas que a desigualdade provoca. Considera a dimensão do poder, mas não aprofunda a dimensão subjetiva da desigualdade, nela incluída a da violência já mencionada. A desigualdade, por ser medida em índices, tende a ser reduzida ao que é quantificável, principalmente à renda monetária, à escolaridade e à expectativa de vida. Continuam excluídos dos índices, no entanto, os efeitos menos visíveis da violência institucional e da violência difusa no social, assim como o acesso à justiça. No caso da violência policial, a dualidade observada por A. L. Paixão (1988) permanece: a polícia para os moleques, elementos e marginais (os pobres) e a polícia para os doutores e senhores (os ricos). No plano social, no entanto, há processos igualitários que o Brasil, vigora um sistema de castas que proíbe certas ocupações superiores aos membros das castas mais baixas, atribuindo-lhes as consideradas mais vis. O casamento intercasta também é proibido. Dois jovens enamorados que pertenciam a castas diferentes foram mortos por seus respectivos parentes no ano de 2001. Há várias dimensões da desigualdade que não foram incorporadas nos índices: a civil (inclusive a existência de leis anti-racistas), a política, a cultural, a institucional etc. Além disso, os homens que se juntam nas hordas, bandos ou quadrilhas de transgressores ou marginais, muitas vezes ainda festejados como opositores à ordem vigente, não agem violentamente para acabar com a violência ou inverter a ordem social, visto que a desigualdade existe em alto grau dentro das organizações e redes da criminalidade transnacional contemporânea, dominada pelo mercado selvagem dos tráficos. A desigualdade é parte da microestrutura de poder no interior das quadrilhas e se manifesta não só na divisão do butim que cabe a cada um, mas também no diferencial de submissão aos instrumentos da violência. Os que estão nos escalões mais baixos sofrem muito mais o medo e o martírio de viver ameaçados pela morte cruel e implacável nas mãos dos inimigos. Vivem sob o império do interdito da traição e da ação independente do comando. A violência cria um abismo absurdo entre o que detém o instrumento, que obriga a submissão, e a sua vítima, que não tem defesa nem recurso. Tem que obedecer. Essas formas extremas de violência desmantelam culturas e possibilidades de associação — culturas que teriam sido inventadas para conter tais paixões ou impulsos humanos —, sem que consigam fazê-lo completamente.

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