Cadê o “RH” do governo?

Ao longo dos últimos 2 anos e meio, tive a oportunidade de trabalhar na área de Gestão de Pessoas da maior empresa de educação do mundo, a Pearson.
Meu aprendizado foi enorme e me deixou segura de que: sem boas práticas para atrair, desafiar e reconhecer pessoas, nenhuma organização é capaz de alcançar seu verdadeiro potencial.
Me preocupa muito quando olho para a realidade da administração pública brasileira, pois estas práticas mal existem. Os resultados deste vazio na gestão de pessoas são bastante ruins e perpassam todas as esferas e órgãos do governo. De lideranças despreparadas para tomar decisões complexas, até servidores que se recusam a trabalhar, mas que mesmo assim não podem ser mandados embora; o quadro é dramático.
Na área da Educação, essa negligência quanto ao “RH do governo” tem consequências profundas. No geral, as redes de educação pública não estão conseguindo atrair os melhores profissionais, não há práticas efetivas para treinar e reter os bons professores na sala de aula, e sem um plano de carreira adequado e desafiador muitos migram para carreiras administrativas ou gerenciais. Novamente, este professor em geral não tem formação para atuar numa posição gerencial como de diretor de escola, não tem um chefe ou mentor para avaliar sua performance e apoiar seu desenvolvimento como gestor. O sistema tem pouquíssimos mecanismos para recompensar quem entrega bons resultados, tanto na sala de aula quanto na gestão de uma escola. Como isso pode dar certo?
Eu nunca ouvi falar de uma organização que alcançou sucesso e bons resultados que não tenha feito isso a partir de um conjunto bem desenhado de regras e incentivos, combinada com a atuação de lideranças alinhadas e, em algum nível, inspiradoras, movendo as pessoas para um mesmo objetivo. Apesar do idealismo e resiliência de alguns dos professores e servidores das redes, o nosso sistema não está desenhado para performar bem.
Mais de 40 milhões de alunos brasileiros passam anualmente por este mesmo sistema, a maioria depende disso para ter alguma chance de uma vida digna lá na frente. Aceitar qualquer coisa que não seja o máximo potencial das nossas redes de educação pública seria injusto e imoral. Este potencial só será atingido quando as pessoas que trabalham nele estiverem também em sua melhor performance, cada um fazendo aquilo que gosta e que faz bem. A pauta de gestão de pessoas é inevitável e é, na minha visão, uma das chaves centrais para transformarmos a educação e o Brasil.

Source: fundação NOVO

Article by Flavia Goulart